Sonhos, melodias e sintomas na obra de Sandor Ferenczi

Dia 26 de Setembro, quinta-feira, às 20h na Sigmund Freud Associação Psicanalítica (Rua Marquês do Herval, 375-POA): ''Sonhos, Melodias e Sintomas na Obra de Sándor Ferenczi'' com Lucas Krüger, Felipe Gerchman e Eduardo Spieler.

No evento do Espaço Narrativas, será apresentado o livro ‘’Sonhos, sintomas e angústias’’, seleção de textos de Sándor Ferenczi, componente da Série Escrita Psicanalítica (Artes ; Ecos, 2019). O livro estará disponível no evento e já está em www.arteseecos.com.br/escritapsicanalitica

Através dessa seleção de textos, e da inédita tradução com consulta ao alemão, os colegas pretendem ressaltar aspectos menos comentados acerca da obra de Ferenczi. Ao invés de tomar as contribuições de Ferenczi acerca do trauma, ainda que importantíssimas, a proposta deste livro é ressaltar outras contribuições do autor, dentre elas ao campo da escrita e da forma psicanalítica de comunicação no texto, além de suas contribuições à clínica das neuroses. Ressaltando esses aspectos da obra de Ferenczi, poderíamos enxergar de maneira menos fragmentada as suas contribuições à psicanálise, sem nos referirmos a Ferenczi unicamente devido a sua contribuição teórica a respeito do trauma.


NOTA INTRODUTÓRIA COMPLETA (PRESENTE NO LIVRO)

Este volume nasce da necessidade de ressaltar aspectos da obra de Ferenczi que foram relegados a segundo plano. O nome de Ferenczi é lembrado, essencialmente, dentro do espectro da clínica psicanalítica do trauma e dos casos graves. Ainda que, obviamente, concordemos com a importância de suas contribuições nesse campo, nossa leitura de sua obra não pretende ater-se a esse recorte específico e, sim, iluminar contribuições de outra ordem.
Após um primeiro contato com parte considerável da obra de Ferenczi traduzida para o inglês , e um primeiro processo de tradução desse material, surgiu a necessidade do contato com os textos em alemão . Assim, o trabalho, que começou em dupla, teve o acréscimo do professor Eduardo para que, através de uma discussão ampla, psicanalítica, linguística e poética (no sentido aberto da palavra), pudéssemos nos direcionar para a mais genuína comunicação de Ferenczi. Nesse contexto, é importante lembrar que as Obras Completas de Ferenczi publicadas no Brasil pela Editora Martins Fontes são traduções das Obras Completas em francês, ou seja, não possui consulta direta nas obras em alemão.
Portanto, após uma primeira tradução fruto da consulta dos textos em inglês, partimos para uma revisão completa a partir dos textos em alemão. Isso faz com que muitas frases, e até mesmo termos e títulos, difiram das traduções das Obras Completas em português. Em alguns casos, há diferenças radicais. Assim, não só a escolha dos textos traz nova luz à obra de Ferenczi, mas a própria tradução apresenta novas contribuições à leitura desses trabalhos em português.
Priorizar textos curtos possui relação com a proposta da Série, de comunicações breves, mas também segue um princípio poético. Há nos escritos curtos de Ferenczi um genuíno compartilhar que convoca o leitor a estar junto. Sem fazer uso de muitas explicações, Ferenczi direciona seus pensamentos para a força embrionária das ideias. Às vezes, um parágrafo pode dizer muito mais do que um calhamaço de páginas. Este princípio, de que menos é mais, é o princípio poético por excelência. Falar apenas o necessário a fim de chegar à essência da comunicação. Essa escolha fez com que ficassem de fora belíssimos textos, que não poderíamos chamar de longos, como ‘’Um pequeno homem-galo (1913)’’, ‘’Adestramento de um cavalo selvagem (1913)’’ ou ‘’Ontogênese do interesse pelo dinheiro (1914) ’’. Mas, se pensarmos que boa parte dos textos selecionados não excede uma página, esses se tornariam extensos dentro do contexto.
Nesse processo, tomamos as ideias de Haroldo de Campos, em que a tradução é uma transcriação. Traduzir é sempre uma tentativa de voltar-se ao já escrito, ao mesmo tempo em que é lançar-se em direção a algo novo. É impossível exprimir em outra língua, diferente da original, a estética e a gama de significados inerentes a ela. O tradutor é o intermediador de uma obra. Nesse contexto, ainda, poderíamos levar em conta o conceito de tradução de Jean Laplanche, no qual o psiquismo está sempre traduzindo as mensagens enigmáticas que advêm do outro (ou melhor, do inconsciente deste outro). O que vem do estrangeiro, do não-eu, passa irremediavelmente por um processo de tradução interna. Por isso, a tradução sempre é uma versão possível.
A essência da psicanálise fica evidente nestes escritos, pois seguem genuinamente o método clínico: compartilhar o que vem à mente em um encontro. Enxergamos nestes textos, muitas vezes escritos tal qual uma conversa com o leitor, um princípio de compartilhamento de ideias e um desejo de que elas não sufoquem ou morram sem alcançar um encontro com o próximo. Destacar estes curtos textos de Ferenczi significa realçar a maneira com que ele se preocupava com o desenvolvimento da psicanálise e da comunidade psicanalítica. Neles desvela-se uma premissa fundamental: para avançar em psicanálise, é preciso compartilhar toda e qualquer ideia.
O título escolhido para a compilação, “Melodias, Sonhos e Sintomas’’, foi composto a partir de palavras-chave. A palavra ‘’melodia’’ se refere ao texto publicado postumamente ‘’A interpretação das melodias que vêm em nossa mente’’, que além de belo, propõe aos psicanalistas estudarem formas de associação livre para além da palavra. É um texto importante, ainda mais por ser de 1909. Mas ‘’melodia’’ também faz com que haja um acento na faceta estética da escrita, remete-se à forma. A palavra ‘’sonho’’ também pode ser lida nesse contexto, mas abre-se para diversas direções, dentre elas, os próprios relatos de sonhos presentes nos textos. Enquanto que não poderia faltar a palavra ‘”sintoma’’, seja porque, de fato, muitos textos aludem a esses em situações clínicas ou até mesmo cotidianas, e porque a palavra ‘’sintoma’’ em psicanálise faz parte dos espectros neuróticos. Os textos escolhidos ressaltam Ferenczi como um psicanalista clínico das neuroses. Evidenciam uma versão menos usual dele.
Naturalmente, a seleção e a tradução dos textos compõem uma construção narrativa e interpretativa nossa. Não estão ordenados conforme datas de publicação. As notas de rodapé, que não as originais, foram indicadas como N.T. (nota dos tradutores). Esperemos que o genuíno compartilhar de ideias continue a contagiar os colegas.

Lucas Krüger, Eduardo Spieler e Felipe Gerchman

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