A Borra 1ª ed.: É possível uma psicanálise decolonial?

“A Borra e a Nata da sociedade”, expressão que escancara a condição verticalizada da organização social há séculos. É em sentido provocativo que a palavra “borra” se apresenta para nomear esta proposta. Faz referência à nossa história, desde um Brasil-colônia e sua cafeicultura que edificou uma economia às custas da escravidão. São muitas as cicatrizes que carregamos: o genocídio dos índios, a escravização do negros, uma ditadura que deixou marcas e não foi reconhecida. O passado que é presente, os restos que insistem, a borra histórica que é deslegitimada por certa “nata” da atualidade e que denuncia a violência de um país tropical que é explorado em nome de "ordem e progresso".
A partir desses restos da nossa cultura, esta primeira Borra se dedicará a colocar em cena para discussão o tema da decolonialidade. Sobre um país que insiste na construção de formas de reconhecimento com uma gramática colonial de subjetivação. O mal-estar produzido pela especificidade destas relações verticais marginaliza quem estiver na ponta debaixo. A psicanálise aponta os furos de saberes hegemônicos, se propõe a operar com os restos no enlace entre clínica e cultura, e, no Brasil, ela mesma se faz à margem. Todavia, sofre de eurocentrismo e tampouco escapa da permeabilidade de nossa herança colonial.
Em tempos de elogios a ditaduras, monarquia e fundamentalismo religioso, assistimos a constantes ataques à verdade-histórica, minimização e deslegitimação de eventos trágicos, anteriores e atuais. Da banalidade da violência, do prevalecimento da ignorância, bem como de incessantes tentativas de silenciamento de um passado-presente gritante. São os destroços da história ignorada e há de saber fazer com eles.
A Borra se propõe a falar dos restos que decantam da violência e da barbárie humana. Restos que, na sua potência de objeto causa de desejo, também carregam a possibilidade de fazer pequenos cortes e rearranjos no automatismo da repetição que assombra nossa cultura. Nestes tempos violentos, abrir espaço de fala e autocrítica com a borra se faz como uma necessidade ética urgente como forma de resistência a barbárie.

“Desperto um belo dia no mundo e me atribuo um único direito: exigir do outro um comportamento humano. Um único dever: o de nunca, através de minhas opções, renegar minha liberdade “
— Frantz Fanon

Organização: Comissão de eventos da turma 02/2019 do PPG Psicanálise: Clínica e Cultura.

Sobre os convidados:

José Damico
Possui graduação em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1989), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2004) e em Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2011) em Cotutela com a Universidade de Paris 8. Atualmente é Professor Associado 1 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de saúde mental e psicanálise, atuando principalmente nos seguintes temas: juventude, saúde coletiva, relações de gênero, relações etnico-raciais e violência. Coordena a Rede Observatório Programa Mais Médicos financiado pelo Fundo Nacional de Saúde, é coordenador adjunto da Rede Multicêntrica e da Coordenação da Residência Multiprofissional em Saúde Mental da UFRGS.

Marta Regina de Leão D'Agord
Possui Graduação em Psicologia, Mestrado em Filosofia e Doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2000) com estágio na França (Univ. Rennes I). É Professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Coordenadora do PPG em Psicanálise: Clínica e Cultura (2014-2018). Bolsista PQ Produtividade em Pesquisa (PQ/2). Líder do Grupo de pesquisa Laboratório de Psicanálise do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. Participa do GT-ANPEPP: Psicanálise, Política e Cultura. Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental. Editora-associada da seção Resenhas da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Atua na área de Psicanálise e Psicopatologia, pesquisando as relações com Topologia, Lógica e Literatura.

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A arte que nos impacta, é do artista e barista indonésio Ghidaq Al-Nizar, que sabe fazer com os restos.

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